Raramente se encontram descobertas arqueológicas tão surpreendentes.Escavações recentes levaram à descoberta de uma escadaria monumental que ligava a rua principal da antiga cidade de Nisa à sua biblioteca romana. Este edifício, que teve grande importância na vida intelectual do enclave, data aproximadamente do século II d.C. A estrutura é um elemento-chave para compreender como os espaços dedicados ao conhecimento eram organizados no âmbito do urbanismo romano na Anatólia ocidental.
Além do seu valor arquitetónico, a escadaria é uma prova direta de como o conhecimento se integrou fisicamente na experiência urbana, estabelecendo uma ligação clara entre a vida quotidiana e os espaços de estudo. A sua descoberta permite agora reconstruir as rotas da cidade, as hierarquias espaciais e os significados simbólicos associados ao acesso à cultura escrita na época romana.
Nisa: a cidade onde o conhecimento fazia parte da paisagem urbana
A biblioteca e a sua escadaria foram descobertas na antiga cidade de Nisa, na atual província turca de Aydin. Na antiguidade, Nisa era um centro cultural e educacional de prestígio, com um traçado urbano único, que se estendia por ambos os lados de um vale profundo. O sítio arqueológico preservou um notável complexo monumental, que inclui um teatro, um estádio, um ginásio, uma ágora, vários edifícios administrativos e uma grande biblioteca. A identificação da escadaria confirma que este edifício não estava isolado da urbanização, mas estava diretamente ligado à principal artéria da cidade, por onde os seus habitantes passavam diariamente. De acordo com os arqueólogos, esta descoberta confirma a ideia de que o acesso ao conhecimento em Nice era considerado um elemento notável e central do espaço público, e não uma atividade marginal, limitada à elite intelectual.

Escadaria: cinco degraus para a sabedoria
A escadaria é composta por cinco degraus de pedra talhada. Esses degraus permitiam superar a diferença de altura de cerca de dois metros entre a rua principal e a plataforma onde se erguia a biblioteca. Os visitantes que subiam esses degraus chegavam a um pátio interno pavimentado com mármore, localizado em frente à entrada. Estudos arqueológicos mostram que a estrutura em degraus foi adicionada após a construção inicial da biblioteca, provavelmente no século II d.C., para resolver o problema arquitetónico de acessibilidade. No entanto, a escadaria vai além de uma simples função prática. A sua localização central, bem visível na paisagem urbana, atesta a intenção deliberada de tornar a entrada monumental.
Assim, o design reforça o caráter cerimonial do percurso. Os degraus simbolizariam a transição do espaço urbano quotidiano para um ambiente dedicado ao estudo, à leitura e à reflexão intelectual. Biblioteca de Nisa: um farol do conhecimento romano na Anatólia A Biblioteca de Nisa foi construída por volta de 130 d.C., durante o período de grande prosperidade das cidades romanas da Ásia Menor. É uma das bibliotecas antigas mais bem preservadas da Anatólia ocidental. Apesar das suas dimensões mais modestas, a sua importância levou a que fosse comparada à famosa biblioteca de Celso, em Éfeso.
O edifício tinha dezasseis nichos destinados ao armazenamento de pergaminhos e manuscritos, o que indica uma coleção considerável para um centro urbano com estas características. A disposição arquitetónica das instalações também sugere que a biblioteca não era apenas um depósito de livros, mas um espaço vivo destinado à leitura, ao ensino e, possivelmente, também à docência. A entrada monumental pela rua principal sublinha que este edifício ocupava um lugar central na vida da cidade. A biblioteca fazia parte de um complexo de instituições públicas destinadas à educação dos cidadãos romanos, que combinavam conhecimento, lazer e vida cívica. O ambiente urbano de Nisa, com a sua combinação de espaços culturais, desportivos e administrativos, reflete o ideal urbano romano, no qual a educação e a cultura estavam intimamente ligadas à vida pública.

Importância arqueológica e simbólica da descoberta
Apesar das suas dimensões relativamente modestas, a escadaria tem uma enorme importância arqueológica, pois resolve a questão há muito debatida de como era possível aceder à biblioteca a partir do nível inferior da cidade. A sua identificação completa o quebra-cabeças urbanístico de um dos mais significativos enclaves romanos na Anatólia. Esta abordagem reforça a ideia de que as bibliotecas romanas eram instituições civis importantes, concebidas como parte ativa do espaço público. Hoje, a escadaria permite aos visitantes deste local percorrer o mesmo caminho que os habitantes de Nisa percorriam há quase dois mil anos para chegar a um dos principais centros de conhecimento da cidade. Além do seu valor material, esta descoberta também nos faz refletir sobre a importância que as sociedades antigas atribuíam ao acesso ao conhecimento, tanto do ponto de vista físico como simbólico.
Um caminho que revive a experiência do mundo antigo
A descoberta da escadaria que conduz à biblioteca de Nisa fornece uma chave valiosa para compreender a urbanística, a cultura e a conceção do conhecimento nas cidades romanas da Anatólia. Esta descoberta enriquece o conhecimento arqueológico sobre a região e destaca a sofisticação com que os romanos integraram espaços culturais no coração das suas cidades, deixando um legado que ainda hoje continua a revelar parte da sua história.
