Estes dispositivos, concebidos para prestar apoio emocional, estão a tornar-se cada vez mais comuns em casas, escolas e centros de cuidados. Os especialistas alertam para o seu impacto nas crianças e nos idosos. A inteligência artificial (IA) já não se limita à organização de informações ou à automatização de tarefas. Nos últimos anos, ela também começou a ocupar uma área mais delicada: a comunicação emocional por meio de robôs criados para interagir, ouvir e reagir. Desenvolvidos à semelhança de animais de estimação (por exemplo, cães, gatos ou pássaros) ou na forma de figuras humanóides, eles não são simples brinquedos ou assistentes de áudio, mas dispositivos que interagem por meio da voz, do toque e do reconhecimento de imagens e têm como objetivo criar uma sensação de presença diária para pessoas que precisam de companhia constante.
No caso dos idosos, estes robôs procuram atenuar a solidão e trazer rotina, enquanto no caso das crianças, alguns dispositivos prometem interação, educativa e lúdica, com a ajuda da IA. Mas, além da novidade, das características surpreendentes e das vantagens, a questão principal sobre estes dispositivos revolucionários não é o que eles prometem, mas qual o impacto real que têm quando se tornam parte da vida quotidiana das pessoas.
O impacto dos robôs de companhia
A solidão dos idosos é considerada um problema de saúde pública associado à depressão, ao declínio cognitivo e a taxas de mortalidade mais elevadas. Há mais de uma década que a sua ligação com as tecnologias de companhia é objeto de investigação. Nesse sentido, um relatório da Frontiers in Psychology, baseado em mais de 20 estudos realizados em residências particulares e lares de idosos, concluiu que os robôs de companhia e os robôs animais de estimação podem reduzir a sensação subjetiva de solidão e proporcionar bem-estar emocional aos idosos.

Parte dessas evidências também vem de estudos com o PARO, um robô terapêutico em forma de foca desenvolvido no Japão. Estudos publicados na Gerontechnology e no Journal of the American Medical Directors Association mostraram que o seu uso em centros geriátricos pode aumentar a interação verbal e melhorar o humor em pessoas com demência leve ou moderada. Ambos os estudos também mostraram que alguns utilizadores consideram as respostas dos robôs confortantes e que os estímulos podem, em alguns aspetos, assemelhar-se à terapia com animais reais, sem os riscos associados, como alergias ou cuidados físicos complexos. No entanto, não há um consenso claro sobre a eficácia desses dispositivos para aliviar a solidão em todos os contextos, e parte dos idosos não vê vantagens significativas, especialmente quando as fronteiras entre a máquina e a presença humana se esbatem.
Percepção e ética
Além desses resultados, o uso de robôs-companheiros abre uma profunda discussão ética. Trabalhos publicados na revista Ethics and Information Technology consideram problemático permitir que um robô seja percebido como um ser humano, especialmente no contexto de demência ou deterioração cognitiva, quando o consentimento e a compreensão podem ser comprometidos. Partindo de uma visão crítica da inter-relação entre tecnologia e relações sociais, a investigadora do MIT Sherry Turkle, em livros como Alone Together e Reclaiming Conversation, adverte que os robôs sociais podem criar ligações emocionalmente convincentes, mas sem reciprocidade real. De acordo com Turkle, em condições de vulnerabilidade, essas simulações emocionais podem substituir as relações humanas genuínas. O uso desses dispositivos também acarreta riscos relacionados ao consentimento, confidencialidade e manipulação de decisões cotidianas, quando esses sistemas coletam dados confidenciais e padrões de comportamento.
Riscos psicológicos e sociais
Um dos riscos mais documentados é a formação de ligações unilaterais: a pessoa projeta emoções reais, e o robô reage apenas de acordo com a sua programação. Estudos etnográficos realizados em centros de cuidados e publicados no International Journal of Social Robotics mostram que muitas pessoas com deficiências cognitivas não conseguem distinguir claramente a presença humana da resposta automática. Isso pode aumentar a confusão emocional, em vez de aliviá-la, e causar uma forma de dependência emocional baseada na simulação. Outro risco identificado é que os robôs-companheiros podem ser usados como um substituto explícito ou implícito da interação humana. Se esses dispositivos forem apresentados como uma solução para o problema da solidão, eles podem diminuir a consciência da necessidade da comunicação humana, o que afetará negativamente os contatos sociais genuínos.

No caso das crianças, os riscos são diferentes, mas não menos significativos. Um estudo sobre a interação entre crianças e robôs, publicado por Tony Belpame e outros investigadores no International Journal of Social Robotics (2018), que analisou mais de dez anos de estudos empíricos, concluiu que os robôs sociais podem atrair a atenção e contribuir para o cumprimento de determinadas tarefas educativas, mas não reproduzem a complexidade das interações humanas necessárias para o desenvolvimento socioemocional precoce. Ao mesmo tempo, estudos liderados por Peter H. Kahn Jr. mostram que as crianças tendem a atribuir intenções e características sociais aos robôs, embora essas interações não tenham reciprocidade real. De acordo com esses trabalhos, habilidades como empatia, interação social e compreensão das normas interpessoais se desenvolvem principalmente através do contato constante com outras pessoas.
Recomendações para o uso responsável de robôs-companheiros
Os dados disponíveis indicam que, embora os robôs-companheiros possam ser ferramentas úteis, a sua implementação deve ser cautelosa e controlada. Os estudos mencionados concordam que esses sistemas não devem ser considerados como substitutos das relações humanas, mas, na melhor das hipóteses, como ferramentas adicionais em ambientes onde o contacto social real continua a desempenhar um papel central. No caso dos idosos, estudos na área da gerontologia e da ética dos cuidados salientam que a interação com robôs sociais não pode substituir a presença de familiares, cuidadores ou profissionais de saúde.
Os benefícios observados em alguns contextos, como a melhoria temporária do humor ou maior estimulação, surgem quando o uso do robô é integrado a um ecossistema mais amplo de cuidados, que inclui visitas de pessoas, atividades conjuntas e observação clínica. Da mesma forma, alertam que o consentimento informado é um aspeto fundamental: os utilizadores devem compreender que se trata de sistemas artificiais, o que é especialmente importante no caso de deterioração cognitiva. A isso se soma a questão da privacidade, uma vez que muitos desses dispositivos registram a voz, rotinas e padrões de comportamento, o que exige estruturas claras de proteção de dados e transparência na sua utilização.

No caso das crianças, estudos sobre a interação humano-robô e a psicologia do desenvolvimento mostram que os riscos estão relacionados não tanto com o uso episódico, mas com a ausência da mediação de um adulto e a substituição das interações humanas por relações simuladas. Os especialistas concordam que a presença de adultos é fundamental para contextualizar essas experiências, regular o tempo de exposição e evitar que os robôs substituam as brincadeiras sociais, a leitura conjunta ou a interação com os colegas. É igualmente importante explicar claramente a diferença entre pessoas e máquinas e esclarecer que as respostas do robô são o resultado de programação, e não de emoções, intenções ou consciência.
O desafio da tecnologia em desenvolvimento
A integração de robôs com IA como companheiros responde a um problema social real: a solidão e a falta de estímulos sociais em muitas camadas da população. No entanto, dados científicos e discussões éticas atuais mostram que a sua contribuição é limitada e contextual e não é ideal. Em alguns casos, podem trazer conforto e estímulo, mas não substituem a complexidade emocional e o valor do contacto humano real. As pesquisas sobre este tema ainda estão em fase de desenvolvimento, e os especialistas concordam com a necessidade de uma avaliação individual de cada caso, protocolos éticos claros e um quadro normativo que coloque em primeiro plano a dignidade, a autonomia e o desenvolvimento psicológico das pessoas. O objetivo não é decidir se esses robôs devem existir, mas determinar com precisão quando, como e para quem o seu uso é realmente apropriado.
