A expansão acelerada dos assistentes conversacionais e seu uso prolongado em contextos pessoais abriu um debate clínico sobre riscos emergentes para a saúde mental, após o surgimento de casos graves investigados por médicos, universidades e tribunais A expansão massiva dos chatbots de inteligência artificial abriu uma nova frente de debate na psiquiatria contemporânea. Em hospitais universitários dos Estados Unidos e da Europa, médicos começaram a detectar um padrão preocupante: pacientes que chegam com delírios intensos após terem mantido interações prolongadas e altamente personalizadas com sistemas conversacionais baseados em IA.Pode interessar-lhe:Fim do ar condicionado: novo dispositivo pode refrigerar toda a casa e economizar 80% de energia
O fenómeno ainda não tem uma categoria diagnóstica formal, mas já circula entre especialistas um termo descritivo: psicose associada ao uso de chatbots. Não se trata de um consenso fechado nem de uma conclusão definitiva, mas de uma hipótese clínica em construção que tenta explicar por que, em certos casos, a interação com essas tecnologias parece coincidir com o aparecimento ou o agravamento de ideias delirantes.
Os especialistas documentaram dezenas de casos potenciais de psicose delirante. De acordo com a investigação jornalística do Wall Street Journal, alguns desses episódios terminaram em suicídios e pelo menos um resultou em homicídio.

Na prática clínica, os quadros observados não diferem de outras psicoses conhecidas. Os pacientes apresentam crenças falsas fixas, pensamento rígido e, em alguns casos, deterioração do funcionamento social. A novidade é o contexto: muitos relatam ter passado semanas ou meses conversando quase exclusivamente com um chatbot, ao qual atribuem compreensão profunda, intencionalidade ou até mesmo consciência.
De acordo com psiquiatras consultados por esse jornal, vários desses pacientes não tinham histórico psicótico claro. Em outros casos, existiam fatores de vulnerabilidade prévios — depressão, distúrbios de humor, consumo de psicofármacos ou privação severa de sono — que poderiam ter facilitado o episódio. A questão central é se a IA atua como detonante, amplificador ou simples acompanhante do processo.Pode interessar-lhe:Descarregar Xuper TV APK grátis para Android e Smart TV, a pergunta mais arriscada no GooglePsiquiatras alertam para uma possível psicose induzida pela inteligência artificial (Imagem ilustrativa Infobae)
Keith Sakata, psiquiatra da Universidade da Califórnia, em São Francisco, afirmou que o problema não reside no facto de o sistema «implantar» uma ideia delirante, mas na sua forma de interação. Ao contrário de outros objetos tecnológicos do passado, os chatbots aceitam a narrativa do utilizador e desenvolvem-na sem a confrontar, o que pode consolidar crenças patológicas em pessoas suscetíveis.«A pessoa conta ao sistema a sua realidade delirante e a máquina aceita-a como verdadeira e devolve-a reforçada», explicou Sakata ao Wall Street Journal.
A literatura psiquiátrica conhece há décadas a tendência dos delírios de incorporar elementos tecnológicos. Rádios, televisores e até mesmo a internet foram integrados em narrativas psicóticas. No entanto, os especialistas destacam uma diferença fundamental: os chatbots não são objetos passivos, mas sim interlocutores ativos que respondem, validam emoções e prolongam a troca.
Essa capacidade de simular uma relação sustentada é o que desperta maior preocupação. Adrian Preda, professor de psiquiatria na Universidade da Califórnia em Irvine, apontou que não há precedentes históricos de uma tecnologia que dialogue de forma tão contínua e adaptativa com o utilizador, reforçando uma única linha de pensamento sem introduzir fricções externas.
Alguns casos clínicos documentados mostram delírios de tipo grandioso ou místico. Pacientes convencidos de ter estabelecido contacto com uma inteligência superior, de terem sido escolhidos para uma missão transcendental ou de possuírem conhecimentos secretos. Noutros, a narrativa assume formas mais íntimas, como a crença de comunicar com pessoas falecidas ou de manter uma ligação exclusiva com a IA.
Um estudo dinamarquês publicado recentemente trouxe dados preliminares para o debate. Ao revisar históricos médicos eletrônicos, os investigadores identificaram dezenas de pacientes cujo uso intensivo de chatbots coincidiu com consequências negativas para sua saúde mental. O trabalho não estabelece causalidade, mas reforça a necessidade de examinar o fenômeno de forma sistemática.

Nos Estados Unidos, um estudo de caso revisado por pares descreveu a hospitalização repetida de uma jovem que se convenceu de que um chatbot lhe permitia falar com seu irmão falecido. Para os autores, o caso ilustra como um sistema projetado para ser empático pode, sem salvaguardas suficientes, reforçar uma interpretação delirante da realidade.
As próprias empresas de tecnologia reconhecem o desafio. A OpenAI afirmou que está a trabalhar para melhorar a deteção de sinais de angústia psicológica e redirecionar os utilizadores para apoio humano quando as conversas derivam em conteúdos sensíveis. Outras empresas, como a Character.AI, adotaram medidas mais drásticas, incluindo restrições de acesso para menores, após ações judiciais relacionadas a suicídios.
O debate também chegou ao plano jurídico. Nos Estados Unidos, foram apresentadas ações judiciais por morte injusta, alegando que certos chatbots contribuíram para estados mentais extremos. Embora esses processos estejam em fase inicial, eles antecipam uma discussão mais ampla sobre a responsabilidade das plataformas quando seus produtos interagem com pessoas em crise.
A OpenAI informou que uma fração muito pequena de seus usuários manifesta sinais compatíveis com emergências psiquiátricas. No entanto, aplicado a centenas de milhões de pessoas, mesmo uma proporção mínima adquire relevância sanitária. Para pesquisadores como Hamilton Morrin, do King’s College London, o próximo passo é analisar grandes bases de dados de saúde pública para detectar padrões reproduzíveis.
Os psiquiatras insistem em evitar conclusões simplistas. Ninguém sustenta que os chatbots “causam” psicose de forma direta e generalizada. A hipótese mais prudente é que, em determinados perfis, essas ferramentas funcionem como um fator de risco adicional, comparável ao consumo de substâncias, ao isolamento social ou à falta de sono.
«É preciso perguntar-se por que razão alguém entra num estado psicótico coincidindo com o uso intensivo de um chatbot», disse Joe Pierre, psiquiatra da Universidade da Califórnia. O desenvolvimento recente de novos modelos, que, segundo as empresas, reduzem respostas complacentes e reforçam limites conversacionais, visa mitigar esses riscos. Mesmo assim, os especialistas alertam que a tecnologia avança mais rápido do que a evidência clínica e a regulamentação.
Nos consultórios, a resposta já é concreta: cada vez mais psiquiatras perguntam aos seus pacientes quanto tempo passam a interagir com chatbots e com que finalidade. Não como um julgamento moral, mas como parte da avaliação integral de um ambiente digital que, para o bem ou para o mal, se tornou inseparável da experiência cotidiana.
