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title: "Por que a cor dos lagartos é decidida num jogo evolutivo de «pedra, papel ou tesoura»"
description: "Pesquisas recentes mostram que a coexistência de múltiplas tonalidades em répteis responde a competições biológicas complexas, onde variantes alternam vantagens reprodutivas e nenhuma consegue..."
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date: 2026-01-08
modified: 2026-01-08
author: "Anna Costa"
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categories: ["Histórias incríveis"]
type: post
lang: pt
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# Por que a cor dos lagartos é decidida num jogo evolutivo de «pedra, papel ou tesoura»

Pesquisas recentes mostram que a coexistência de múltiplas tonalidades em répteis responde a competições biológicas complexas, onde variantes alternam vantagens reprodutivas e nenhuma consegue se impor definitivamente sobre as outras O surgimento de um **fenótipo dominante** entre os ***lagartos*** põe em risco o equilíbrio ancestral de **cores** e **estratégias reprodutivas**. Duas pesquisas recentes, publicadas na *Science*, revelam que a **flexibilidade biológica** e a **plasticidade fenotípica** têm sido cruciais para preservar a variedade de tons, embora esse sistema possa ser comprometido por variantes capazes de deslocar as formas tradicionais.

## **O polimorfismo de cor: como é o sistema evolutivo**

O **polimorfismo de cor** descreve a coexistência de diferentes tonalidades na mesma espécie. Nos **lagartos**, essa característica é especialmente visível entre os machos, onde cada cor costuma estar associada a uma **tática reprodutiva** específica. De acordo com a *Science*, nenhuma variante consegue se impor de forma definitiva, o que permite que várias cores persistam geração após geração. Este fenómeno assemelha-se ao jogo de **pedra, papel ou tesoura**, onde cada opção pode vencer outra, mas existe sempre uma alternativa capaz de **manter o equilíbrio**. Investigadores destacam a importância da plasticidade fenotípica para preservar o polimorfismo de cor em diferentes espécies de lagartos

A persistência desta diversidade depende de um mecanismo conhecido como **seleção equilibradora**. **Siddharth S. Gopalan** e **Todd A. Castoe** explicam que esse processo evolutivo favorece as variantes menos frequentes, impedindo que uma única cor predomine na população. Assim, a ***diversidade genética*** é preservada e nenhum fenótipo obtém vantagens absolutas a longo prazo, o que mantém a riqueza cromática da espécie.

![](https://omeucantinhosocial.pt/wp-content/uploads/2026/01/2-121.jpg)

## **Ameaça ao equilíbrio: o caso do fenótipo nigriventris**

Na **lagartixa-das-rochas** (**Podarcis muralis**), comum na Europa, a presença de um novo fenótipo, **nigriventris**, está a quebrar este antigo equilíbrio. A investigação liderada por **Tobias Uller**, divulgada na *Science* e na *Phys.org*, observa que os indivíduos com **dorso verde brilhante** e alto estatuto social estão a substituir as cores tradicionais **amarelo** e **laranja**. A equipa de Uller sustenta que a introdução deste fenótipo dominante altera a **seleção equilibradora**, acelerando a perda do polimorfismo de cor. A dinâmica lembra a chegada de um **jogador invencível** que interrompe um ciclo de competição que funcionava há milhões de anos.

A expansão do **nigriventris** não só modifica a aparência da população, mas também afeta o **comportamento** e as **interações sociais** dos lagartos. Os exemplares com a nova cor dominante tendem a ter vantagens na luta pelo **território** e pelo acesso a **parceiros**, o que reforça a sua predominância e reduz a presença de variantes anteriores. Esta situação coloca em risco a **coexistência milenar** de cores, uma característica que perdurou graças a complexos jogos evolutivos e à ausência de domínios absolutos.

## **Plasticidade fenotípica: defesa da diversidade em outras espécies**

Em contraste, os **lagartos de manchas laterais** (**Uta stansburiana**) dos **Estados Unidos** mostram uma estratégia diferente para conservar a sua diversidade cromática. A seleção equilibradora garantiu, durante milhões de anos, a coexistência de múltiplas cores e estratégias reprodutivas nos lagartos. Crédito: UNAM Global De acordo com a investigação liderada por **Ammon Corl** na revista *Science*, embora os machos apresentem **gargantas laranja, azuis ou amarelas**, na realidade existem apenas **duas variantes genéticas principais**. A **cor amarela** não depende de um alelo específico, mas é produzida pela **plasticidade fenotípica**: alguns lagartos com **genótipo azul** podem desenvolver uma garganta amarela se não conseguirem estabelecer um território no início da época reprodutiva.

![](https://omeucantinhosocial.pt/wp-content/uploads/2026/01/1-141.jpg)

Essa capacidade de adaptação permite que a população ajuste sua coloração de acordo com a competição e as circunstâncias ambientais. A **plasticidade fenotípica** atua como um escudo contra a perda de variantes, pois introduz **flexibilidade** na expressão de características sem exigir mudanças genéticas permanentes. Assim, a população pode responder rapidamente a **pressões seletivas**, mantendo a diversidade de cores mesmo quando surgem novos desafios evolutivos ou mudanças no ambiente. Este mecanismo contrasta com a situação observada em **Podarcis muralis**, onde a falta de flexibilidade contribui para o desaparecimento de cores ancestrais com a chegada de um fenótipo dominante.

## **Simulações e futuro da biodiversidade cromática**

Para analisar a estabilidade desses sistemas, as equipas de investigação utilizaram **simulações computacionais**. Tanto a *Science* quanto a *Phys.org* relatam que os modelos com apenas duas variantes genéticas e plasticidade fenotípica são **mais resistentes** ao desaparecimento de cores do que aqueles com três alelos sem flexibilidade. As simulações demonstram que um novo fenótipo dominante pode eliminar a **coexistência milenar** de cores, mas a plasticidade fenotípica oferece **maior proteção contra a perda de variantes ancestrais**. Estas investigações sugerem que a **biodiversidade cromática** dos lagartos depende da capacidade das espécies de se adaptarem rapidamente a novas circunstâncias.

Embora a **seleção equilibradora** tenha sido eficaz para manter a riqueza de tons durante milhões de anos, o aparecimento de variantes dominantes pode desequilibrar o sistema. A plasticidade fenotípica surge como um recurso fundamental para preservar a diversidade diante das ameaças evolutivas e ambientais, garantindo que os lagartos continuem exibindo uma ampla gama de cores no futuro.
