Uma especialista insta a aproveitar o crescimento do grupo de idosos saudáveis, valorizando a sua experiência, criatividade e capacidade de adaptação, e promovendo mudanças na vida laboral e a integração intergeracional na sociedade atual As advertências sobre o envelhecimento da sociedade costumam centrar-se nos riscos: pressão sobre os sistemas de saúde, sustentabilidade das pensões e receio de uma economia estagnada. No entanto, vozes especializadas como a da professora Sarah Harper, diretora do Instituto Oxford sobre o Envelhecimento da População, convidam a olhar para o fenómeno de uma perspectiva diferente, destacando tanto os desafios quanto as imensas oportunidades que surgem de uma população cada vez mais longeva. Harper defende que «as preocupações com o envelhecimento da população são exageradas e a sociedade deveria aprender a celebrar e aproveitar a sua enorme coorte de idosos saudáveis, ativos e criativos».
Oportunidades e desafios do envelhecimento populacional, segundo Sarah Harper
Diante da preocupação generalizada com o aumento da idade média da população, Harper afirma que «isso é um sucesso, pois cada bebé que nasce terá a oportunidade, ou deveria ter, de ter uma educação superior, ser saudável e viver uma vida longa e saudável». Ela reconhece que haverá pessoas que, ao atingirem idades avançadas, se tornarão frágeis e precisarão de cuidados, mas ressalta que “existem alguns desafios [para uma população que envelhece], mas também existem enormes oportunidades e, em vez de tentar resistir, detê-los ou desviá-los, devemos buscar essas oportunidades, porque temos essa enorme coorte de idosos saudáveis, ativos e criativos”.
A especialista insiste que a chave está em deixar de ver o envelhecimento como uma ameaça e começar a aproveitar o potencial de uma geração com experiência e capacidades valiosas. «E como ainda estamos presos em instituições do século XX que não os apreciam nem se beneficiam deles, precisamos criar novas formas de viver e trabalhar que nos permitam aproveitar esse enorme grupo de adultos», diz Harper.

Mudanças demográficas globais e estrutura da população
A tendência para o envelhecimento não é exclusiva de alguns países. De acordo com Harper, «dois terços dos países do mundo já tinham taxas de fertilidade abaixo do nível de reposição necessário para manter o mesmo tamanho da população na próxima geração, e o envelhecimento da maioria das populações era inevitável».
Este fenómeno traduz-se em alterações substanciais na estrutura demográfica: em vez da tradicional pirâmide populacional, com uma base ampla de jovens, o futuro assemelhar-se-á mais a um arranha-céus, com gerações mais jovens mais pequenas e uma proporção considerável de idosos.
No caso do Reino Unido, os números oficiais estimam que, em 2072, 27% da população terá 65 anos ou mais.
Este crescimento demográfico nos segmentos de idade mais avançada deve-se tanto ao aumento da longevidade como à entrada da geração do baby boom na velhice.
Harper adverte que «as gerações mais jovens eram mais pequenas e semelhantes em tamanho. Isto significa que, no futuro, a estrutura etária da população se assemelhará a um arranha-céus em vez da pirâmide tradicional».
Propostas para adaptar a sociedade ao envelhecimento: reconversão profissional e novas formas de trabalhar
Diante desse cenário, Harper e outros especialistas defendem a transformação da forma como a sociedade concebe a vida profissional e a participação dos idosos. Eles destacam a importância da reconversão profissional e da formação contínua para permitir que os idosos se adaptem às mudanças nas exigências do mercado de trabalho.
O trabalho flexível, a possibilidade de combinar emprego e tempo livre e o reconhecimento das competências acumuladas ao longo de uma carreira são apresentados como elementos essenciais para integrar plenamente este setor da população.Harper salienta que «a principal oportunidade era aproveitar a melhoria na saúde e na educação dos idosos, especialmente aqueles entre 50 e 70 anos».
Além disso, ele sublinha a necessidade de reduzir as desigualdades na saúde e na educação para que todos os idosos tenham a possibilidade de realizar contribuições significativas para a sociedade. «É importante abordar as desigualdades em matéria de saúde e educação para que todos os idosos possam realizar uma contribuição valiosa», indica.

Fertilidade, igualdade de género e razões por trás da diminuição dos nascimentos
A queda nas taxas de fertilidade é outro dos grandes temas do debate demográfico. Mesmo em países com políticas avançadas de igualdade de género e apoio à criação dos filhos, como os escandinavos, não se conseguiu aumentar a fertilidade acima do nível de reposição. Harper sublinha que «oferecer serviços de acolhimento de crianças acessíveis e de alta qualidade é a chave para libertar o potencial tanto dos jovens adultos como dos idosos».
A especialista alerta que existe um grupo crescente, especialmente de mulheres, que opta por não ter filhos por diversos motivos. Entre as razões estão preocupações relacionadas com a Covid, a crise climática, a superpopulação e também uma mudança profunda na perceção da maternidade como elemento central da vida adulta feminina.
«Haverá sempre um grupo, provavelmente crescente, de mulheres que decidiram que, por várias razões, não vão ter filhos. E, de certa forma, temos de aceitar isso e trabalhar com isso», afirma Harper, que acrescenta: «Acho que é uma mudança psicológica realmente grande».
Reformas económicas e do sistema de pensões face ao aumento do número de idosos
O prolongamento da vida ativa e a sustentabilidade dos sistemas de pensões constituem um desafio essencial nas sociedades envelhecidas. Harper adverte que os esquemas atuais, baseados na reforma antecipada e numa longa esperança de vida, são insustentáveis nas condições demográficas atuais. «As pessoas também sabem, financeiramente, que se se reformarem aos 60 anos e viverem mais 40 anos… É simplesmente insustentável com o sistema de pensões que temos», salienta. Como estratégia, propõe «ligar a pensão do Estado às contribuições para a segurança social, em vez de à idade».
