Estudo confirma que a expansão romana causou graves problemas de saúde à população local

A conquista romana da Grã-Bretanha, iniciada em 43 d.C., é frequentemente associada a uma narrativa histórica dominada por processos de urbanização, integração económica e transformação cultural. No entanto, análises bioarqueológicas recentes permitiram refinar esse quadro, concentrando a atenção nas consequências biológicas dessa mudança histórica. Na verdade, a ocupação romana não só alterou o panorama político e social, mas também mudou profundamente o estado de saúde da população local. Com base no estudo sistemático de restos ósseos encontrados em contextos pré-romanos e romanos, a arqueóloga Rebecca Pitt conseguiu avaliar como a vida sob o domínio imperial afetou negativamente o bem-estar de mães e crianças ao longo de várias gerações.

O trabalho, publicado na revista Antiquity, baseia-se na conceção teórica das chamadas origens em desenvolvimento da saúde e da doença, uma perspetiva que enfatiza a importância das fases iniciais da vida na formação da saúde futura. Graças a essa abordagem, os esqueletos de crianças e mulheres tornam-se testemunhas diretas da influência que a urbanização, a desigualdade social e a pressão económica associadas ao domínio romano exerceram sobre a Grã-Bretanha.

Do mundo da Idade do Ferro à ordem romana

Antes da conquista, as comunidades da Idade do Ferro na Grã-Bretanha tinham diferentes formas de organização, dependendo das características regionais. Dados arqueológicos indicam que as comunidades utilizavam sistemas de produção adaptados às condições locais e mantinham tradições culturais relativamente estáveis. A chegada do domínio romano levou à introdução de uma administração centralizada, que alterou o acesso aos recursos e acentuou as diferenças sociais, especialmente entre os centros urbanos emergentes e as zonas rurais. Este processo não foi homogéneo. Enquanto algumas áreas mantiveram as práticas anteriores, outras integraram-se rapidamente nas redes administrativas romanas. A criação de cidades, a construção de infraestruturas e a concentração da população levaram ao surgimento de novos problemas ambientais e sanitários. Estas mudanças estruturais são fundamentais para compreender as razões do significativo agravamento da saúde de certas camadas da população após a conquista.

Abordagem inovadora: a saúde começa antes do nascimento

A investigação parte da hipótese das origens em desenvolvimento da saúde e da doença, segundo a qual as condições em que decorrem os primeiros mil dias de vida — desde a gravidez até cerca dos dois anos de idade — têm um impacto duradouro no organismo. O stress relacionado à alimentação, as infeções e a deficiência de nutrientes nesse período crítico deixam marcas que podem ser detectadas no esqueleto mesmo após séculos. Deste ponto de vista, a saúde das crianças não pode ser analisada isoladamente, mas apenas em relação direta com o bem-estar das mães. As condições de vida das mulheres em idade reprodutiva influenciam o desenvolvimento do feto e a sobrevivência na primeira infância. Tudo isto permite avaliar o impacto intergeracional das mudanças sociais causadas pelo domínio romano.

Amostra arqueológica: comparação de épocas e ambientes

Para avaliar esses processos, foram analisados mais de seiscentos indivíduos de sítios arqueológicos da Idade do Ferro e do período romano na Inglaterra. A amostra incluiu tanto crianças muito pequenas quanto mulheres adultas em idade reprodutiva de áreas rurais e urbanas. Graças a essa comparação, foram identificadas diferenças evidentes entre as comunidades que existiam antes da conquista e as que viviam sob o domínio romano, bem como entre as populações rurais e urbanas. A análise concentrou-se em marcadores ósseos de stress, infeções e doenças metabólicas, que deixam marcas visíveis nos dentes e ossos.

Infância sob o domínio romano: mais doenças e pior crescimento

Os resultados da análise mostram um aumento significativo das alterações patológicas nas crianças do período romano em comparação com a população infantil da Idade do Ferro. Os índices mais elevados são observados em ambientes urbanos, onde a densidade populacional, a poluição ambiental e a relativa escassez de recursos agravavam os riscos para a saúde. Entre os indicadores mais frequentes estão infecções ósseas, defeitos no esmalte dentário e sinais de doenças metabólicas relacionadas à deficiência de nutrientes. Além disso, muitas crianças na Grã-Bretanha romana apresentam sinais de atraso no crescimento, o que indica longos períodos de stress após o nascimento, possivelmente relacionados ao desmame e à perda da proteção materna.

Mulheres e maternidade: o preço oculto da vida urbana

A análise dos restos ósseos de mulheres adultas confirma este quadro de deterioração da saúde. Embora as doenças dentárias fossem comuns em todos os períodos, as mulheres que viviam nas cidades romanas apresentam sinais de doenças claramente mais graves, especialmente no que diz respeito a distúrbios metabólicos e doenças respiratórias. Esses dados indicam condições de vida mais difíceis nos centros urbanos, caracterizados pela superlotação e pela exposição a substâncias poluentes. Assim, a saúde das mães teve um impacto negativo na geração seguinte e intensificou o ciclo de vulnerabilidade biológica que se prolongou ao longo dos séculos.

Urbanização, poluição e desigualdade: quando as conquistas deixam marcas nos corpos

Em contrapartida, as comunidades rurais parecem ter preservado em maior medida os modos de vida tradicionais. Os seus indicadores de saúde pública assemelham-se mais aos da Idade do Ferro do que aos das cidades romanas. Os resultados da investigação, portanto, põem em causa a ideia de um processo de romanização uniforme e benéfico. A experiência da conquista foi extremamente desigual e as suas consequências biológicas variaram consoante o grau de integração das comunidades no sistema imperial. Enquanto as elites urbanas deixaram a sua marca na história arqueológica na forma de monumentais construções arquitetónicas, os esqueletos revelam o outro lado do processo: as comunidades foram submetidas a novas pressões que prejudicaram a sua saúde a longo prazo.

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