Escavações arqueológicas e suas ligações: descoberta de uma joia de prata com a imagem da deusa mesopotâmica Ishtar

Apesar do seu tamanho modesto, esta joia invulgar testemunha as ligações culturais, comerciais e religiosas que existiam na antiguidade entre as civilizações da Anatólia, do Levante e da Mesopotâmia central. A descoberta foi feita durante pesquisas arqueológicas sistemáticas realizadas neste local com o objetivo de reconstruir o desenvolvimento urbano, económico e simbólico da cidade. O aparecimento de um objeto com iconografia claramente ligada ao mundo da Mesopotâmia despertou grande interesse entre os especialistas, pois fornece novas pistas sobre a disseminação de crenças e símbolos religiosos para além das suas fronteiras.

Amós: um enclave marítimo de importância vital

A cidade de Amós ergue-se na colina Asarquic, de onde se tem uma vista sobre a baía de Gekova e as rotas marítimas que ligavam o mar Egeu ao Mediterrâneo oriental. Fundada há mais de 2200 anos, nos períodos helenístico e romano inicial, esta colónia tornou-se um ponto-chave para o intercâmbio de mercadorias, pessoas e ideias entre as diferentes regiões do Mediterrâneo. As primeiras investigações arqueológicas documentadas neste local foram realizadas em 1948. Escavações recentes lideradas pelo professor Mehmet Gürbüzera, da Universidade de Muğla, revelaram que se tratava de uma cidade bem estruturada, com muralhas defensivas, bairros residenciais, um teatro bem preservado e edifícios religiosos, como o templo de Apolo Samnayos. Esses elementos confirmam que Amós era um centro urbano dinâmico, integrado em redes económicas e culturais de longo alcance.

Um pingente de prata invulgar

Durante os trabalhos arqueológicos, a equipa descobriu um pingente de prata fabricado com notável precisão técnica. Nele estão representados dois motivos iconográficos de grande importância na antiga Mesopotâmia: a figura de um leão e uma estrela de oito pontas. Ambos os elementos são símbolos associados a Ishtar, uma das divindades mais importantes do panteão mesopotâmico. O leão, figura comum na arte do Antigo Oriente Médio, simboliza tanto a força selvagem que deve ser subjugada quanto a força, a autoridade e o poder característicos do rei. Todas essas qualidades correspondem ao lado guerreiro da deusa. A estrela de oito pontas, por sua vez, serve como símbolo astrológico associado à esfera celeste. Os arqueólogos salientam que o pingente vai além da função decorativa e destacam o seu forte significado simbólico. A combinação de motivos decorativos sugere que ele poderia ser interpretado como um amuleto protetor, um sinal de afiliação religiosa ou um objeto repleto de significado ritual.

Ishtar: deusa com uma história milenar

Ishtar era uma das divindades mais complexas e veneradas do Antigo Oriente Médio. A sua imagem combinava qualidades aparentemente contraditórias, pois ela era simultaneamente a deusa do amor, da sexualidade e da fertilidade, mas também da guerra, do poder e da soberania. A estrela de oito pontas associada a Ishtar refere-se ao planeta Vénus, cujo aparecimento como estrela da manhã e da tarde reforçava a ideia de dualidade. O leão, por sua vez, personifica a força indomável e o poder divino, atributos que acompanhavam a deusa em relevos, selos e objetos pessoais, comuns em todo o Oriente Médio na antiguidade.

Amós, mistura de culturas

O aparecimento de um objeto com iconografia mesopotâmica em Amós sugere que a cidade participava em redes avançadas de intercâmbio cultural, para além do comércio de mercadorias. Assim, crenças religiosas, símbolos e práticas rituais também se espalhavam, transportados por comerciantes, viajantes ou comunidades que se instalavam temporariamente no porto. Análises preliminares indicam que o pingente pode ser datado dos séculos VII-V a.C. Neste contexto, Amós representa um ponto de contacto entre as diferentes tradições culturais do antigo Oriente, onde elementos do mundo mesopotâmico puderam integrar-se no ambiente helenístico sem perder o seu significado simbólico.

Um pequeno objeto com grande significado

O colar de prata é uma prova material da disseminação de ideias religiosas a grandes distâncias. Além disso, este tipo de objetos pessoais é especialmente valioso para os arqueólogos, pois reflete preferências individuais, crenças pessoais e ligações culturais que nem sempre são visíveis em grandes edifícios públicos. A joia de prata encontrada em Amós não é apenas um exemplo de artesanato antigo, mas também uma prova tangível das profundas ligações entre o Mediterrâneo e o Médio Oriente. Através dos seus símbolos, este objeto revela uma história de intercâmbio cultural, na qual crenças, identidades e rotas comerciais se entrelaçaram ao longo dos séculos. Assim, a descoberta confirma que as religiões antigas eram fenómenos dinâmicos, capazes de se transformar ao entrar em contacto com novas comunidades. Amós parece, portanto, ser o local ideal para estudar a hibridização cultural e simbólica no Mediterrâneo antigo.

Cody Life