Descobrem substância na saliva que reduz o risco de cáries: por que isso pode mudar a higiene oral

Uma equipa da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, identificou um mecanismo natural na boca que pode reduzir os danos dentários associados ao consumo de açúcar Numa pequena sala do Departamento de Odontologia da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, um grupo de voluntários aceitou usar dentaduras postiças especiais durante quatro dias. O objetivo da experiência parecia simples: descobrir se uma substância presente naturalmente na boca pode tornar-se uma aliada inesperada para evitar cáries. O resultado foi contundente: a arginina, um aminoácido, modificou a composição da placa bacteriana e reduziu o risco de cáries dentárias de forma significativa. Foi o que indicou a pesquisa publicada recentemente na revista International Journal of Oral Science.

Um inimigo invisível: como atuam as cáries dentárias

A cárie dentária afeta milhões de pessoas em todo o mundo. O processo começa quando as bactérias da boca fermentam os açúcares presentes nos alimentos e geram ácidos capazes de desgastar o esmalte dos dentes. Essas bactérias não agem sozinhas: elas se agrupam formando comunidades conhecidas como biofilmes ou placas dentárias, que se aderem à superfície dentária e agravam os danos. A experiência demonstrou que a arginina, presente naturalmente na boca, reduz o risco de cáries. O açúcar não é o verdadeiro vilão, mas sim as bactérias que o consomem e produzem ácidos: esses microrganismos excretam substâncias ácidas que dissolvem o esmalte dentário. A situação piora quando a biofilme cria um ambiente protegido para as bactérias mais resistentes, dificultando a sua eliminação com a escovagem comum.

Arginina: a defesa natural que vive na saliva

A novidade do estudo reside no papel da arginina, um aminoácido que o corpo produz naturalmente e que também está presente na dieta diária. Este composto favorece o crescimento de bactérias benéficas que contam com o sistema chamado arginina deiminase (ADS). Graças a este mecanismo, as bactérias podem transformar a arginina em compostos alcalinos, capazes de neutralizar os ácidos e elevar o pH da boca. O aumento da arginina ajuda a multiplicar as bactérias benéficas e inibe o crescimento das bactérias produtoras de ácido. A investigação da Universidade de Aarhus confirmou que, ao aplicar arginina regularmente na boca, a composição da placa dentária se transforma e o risco de cáries diminui.

Uma experiência com resultados claros

O estudo dinamarquês recrutou doze participantes com cáries ativas. Foram-lhes entregues dentaduras especiais, capazes de recolher biofilmes em ambos os lados da mandíbula. Todos os dias, os voluntários deviam mergulhar as dentaduras numa solução de açúcar para estimular a formação de biofilmes e, em seguida, aplicar arginina num lado e água destilada no outro, como controlo.

Após quatro dias, os investigadores analisaram a acidez e a composição bacteriana das biofilmes formadas. «As biofilmes tratadas com arginina apresentaram um pH significativamente mais alto (menor acidez) 10 e 35 minutos após a exposição ao açúcar», detalhou Yumi C. Del Rey, autora principal do estudo. A diferença manteve-se constante: o lado tratado com arginina ficou mais protegido contra a acidificação que causa cáries. A equipa utilizou técnicas de sequenciação genética para identificar as bactérias presentes em cada amostra. Os resultados revelaram que a arginina reduziu a presença de Streptococcus mitis/oralis, um grupo associado à produção de ácido, e aumentou a proporção de bactérias capazes de metabolizar a arginina.

Alterações na estrutura da placa dentária

As evidências recolhidas pela equipa dinamarquesa abrem as portas para novas estratégias de combate à cárie dentária. A arginina pode se tornar um ingrediente fundamental para pastas dentífricas e enxaguantes bucais, especialmente para pessoas com alto risco de cáries. A substância, presente na saliva e em alimentos ricos em proteínas, é considerada segura até mesmo para crianças. Embora alguns voluntários não tenham respondido de maneira uniforme ao tratamento, o estudo confirmou que a arginina reduz a toxicidade das biofilmes, altera a sua estrutura e remodela o microbioma oral. O próximo desafio será determinar como incorporar essa substância de maneira eficaz em produtos de uso diário para maximizar o seu efeito protetor.

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