O mundo da arqueologia fascina não só os aficionados, mas também aqueles que apenas se aproximam dele e descobrem histórias que parecem ter sido escondidas propositadamente. Neste caso, trata-se de uma rede de túneis subterrâneos sob Veio, a antiga cidade etrusca que foi a primeira grande rival do Império Romano. O novo mapa do subsolo de Veio foi possível graças a um trabalho conjunto entre o Museu Nacional Etrusco de Villa Giulia e a Universidade Sapienza de Roma, com o apoio do Ministério da Cultura da Itália. As arqueólogas Luana Toniolo e Laura Maria Michetti lideraram a investigação e coordenaram o uso de tecnologia robótica para entrar em áreas que estavam fora do alcance humano há séculos.
Mapeiam a rede de túneis secretos de uma antiga cidade rival de Roma
A equipa trabalhou com o Magallanes, um rover autónomo com um sistema de suspensão inspirado nos veículos que a NASA enviou a Marte. Essa estrutura permitiu-lhe avançar por galerias estreitas e húmidas sem colocar em risco ninguém da equipa.
O rover transmitiu imagens e medições em tempo real. Cada trecho era registrado enquanto os investigadores, a partir da superfície, acompanhavam seu avanço quase metro a metro.
A essa exploração foram adicionados scanners a laser LiDAR, que captaram milhões de pontos e geraram um modelo tridimensional da rede. Em seguida, integraram todas essas informações com estudos geofísicos e o trabalho arqueológico tradicional.
Assim surgiu, pela primeira vez, um mapa completo dos cuniculi, aquele sistema de canais subterrâneos sempre mencionado nos estudos etruscos, mas que nunca havia sido documentado de forma clara.
Por que esta descoberta altera a história de Veio e de Roma

O resultado revela uma infraestrutura mais complexa do que se imaginava. Os túneis não eram simples valas de drenagem. Eles respondiam a um plano hidráulico que regulava a água do santuário e das áreas próximas. No traçado aparecem canais, cisternas, poços de captação e passagens que conectavam diferentes níveis da antiga cidade.
No Santuário de Portonaccio, a escavação digital revelou uma grande piscina sagrada junto ao templo de Apolo. Fazia parte de rituais de purificação que mais tarde Roma aproveitou, sinal de que a sua função simbólica continuou viva após a conquista.
A rede mostra também rotas discretas de movimento interno que, durante um cerco, teriam facilitado o transporte de recursos ou a deslocação de tropas.
O mapeamento dá uma visão diferente do nível técnico etrusco. Veio aparece como uma cidade que lidava com a água e o terreno com uma precisão que até agora era quase sempre atribuída a Roma.
Com os dados obtidos, será possível criar modelos 3D do subsolo, localizar áreas que ainda não foram escavadas e planear intervenções sem danificar estruturas frágeis. Além disso, o registo digital torna-se uma ferramenta de conservação para um património que há séculos se deteriorava sem controlo.
A história do conflito entre Roma e Veio
A relação entre Roma e Veio nunca foi tranquila. Separadas por pouco mais de 15 quilómetros, competiam por rotas comerciais, terras férteis e o controlo do rio Tibre. Os confrontos começaram nos primeiros séculos da República e repetiram-se em ciclos de guerra e trégua.
O ponto decisivo chegou após 10 anos de confrontos contínuos, um período longo e exaustivo que terminou em 396 a.C. Roma colocou Marco Fúrio Camillus à frente, cuja estratégia mudou o rumo do conflito. De acordo com fontes antigas, ele ordenou a escavação de um túnel que permitisse às suas tropas entrar na cidade de surpresa. Esse golpe final abriu as portas para a conquista.
