O enigma dos dinossauros na Europa: um segredo revelado após cem anos

Um grupo de investigadores utilizou digitalizações 3D e técnicas modernas de análise para examinar ossos antigos, o que permitiu identificar espécies que antes tinham sido classificadas incorretamente A imagem dos grandes dinossauros com chifres, como o Triceratops, sempre esteve ligada à América do Norte e Ásia. Durante décadas, museus e livros de paleontologia repetiram uma ideia: os dinossauros ceratopsianos nunca habitaram a Europa. Essa teoria acaba de ruir após a análise de um fóssil encontrado na Hungria que reescreve o mapa da pré-história do continente.

A descoberta não partiu de uma nova escavação, mas de uma revisão minuciosa de fósseis conservados em coleções europeias. Uma equipa internacional de paleontólogos, liderada por Susannah C. R. Maidment, aplicou tecnologias como tomografia computadorizada e modelagem 3D aos restos mortais do Ajkaceratops kozmai, um dinossauro descoberto na Hungria.O resultado foi conclusivo: «Ao analisar o crânio, encontramos um bico em forma de gancho e um palato abaulado, características típicas dos ceratopsídeos», detalhou o estudo publicado na revista Nature.Um fóssil encontrado na Hungria desafia a crença de que os dinossauros ceratopsianos nunca habitaram a Europa Crédito: Nature (2026) Até então, muitos desses fósseis tinham sido erroneamente classificados como pertencentes à família dos iguanodontídeos, devido às semelhanças superficiais entre os dois grupos.

Redefinindo espécies e corrigindo o mapa evolutivo

O impacto desta descoberta vai além de uma simples mudança de nome. Ao revisar outros fósseis, os especialistas identificaram que espécies emblemáticas da paleontologia europeia também eram ceratopsídeos mal identificados. Um dos casos mais relevantes é o de um dinossauro romeno conhecido como Zalmoxes shqiperorum, que após a nova análise foi rebatizado como Ferenceratops shqiperorum. Este ajuste presta homenagem ao paleontólogo austro-húngaro Franz Nopcsa, pioneiro no estudo dos dinossauros europeus.

O caso do Ferenceratops shqiperorum é especialmente simbólico. Não só por ser uma correção de uma espécie mal classificada durante décadas, mas porque coloca de volta no mapa um dos paleontólogos mais curiosos de seu tempo. O próprio Nopcsa havia sugerido há mais de cem anos que a Europa abrigava linhagens insulares únicas, embora nunca tenha conseguido prová-lo com as ferramentas de sua época.

A Europa, um corredor e não uma ilha perdida

Até agora, a narrativa predominante sustentava que a Europa, fragmentada em ilhas durante o Cretáceo, tinha desenvolvido uma fauna de dinossauros completamente diferente da da Ásia e da América do Norte. A ausência de ceratopsídeos no registo fóssil servia de argumento para essa «exceção europeia». No entanto, o novo estudo contradiz essa visão. Se esses dinossauros realmente estiveram presentes, embora camuflados sob identidades erradas, o panorama muda radicalmente.

De acordo com a pesquisa publicada, os resultados desafiam a compreensão convencional sobre a evolução dos dinossauros ornitisquios e sugerem a necessidade de uma reavaliação fundamental dos conjuntos de dinossauros herbívoros do final do Cretáceo na Europa. Para os autores, a presença de ceratopsídeos reforça a hipótese de que a Europa serviu como corredor biogeográfico, permitindo a dispersão de espécies entre a Ásia e a América do Norte por meio de arquipélagos e pontes terrestres.

Uma nova etapa para a paleontologia europeia

A descoberta marca o início de uma revisão profunda dos fósseis armazenados em museus de toda a Europa. «Muitos deles podem ter sido classificados erroneamente no passado», alertaram os cientistas. As técnicas modernas abrem a porta para reinterpretar fragmentos antigos e reescrever a história com maior precisão. Esta descoberta, segundo a revista Nature: «Tem implicações muito mais profundas do que uma simples correção taxonómica. O que está em jogo é a forma como entendemos a história evolutiva do continente europeu durante o Cretáceo». A partir de agora, cada fóssil europeu pode esconder uma história diferente daquela que lhe foi atribuída. A paleontologia europeia entra numa fase de revisão e reinterpretação, impulsionada pela tecnologia e pela humildade científica. Como conclui a investigação: «O que pensamos saber pode ser apenas o primeiro rascunho da verdade».

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