Há décadas que procurávamos uma alternativa ao cimento. Acabámos de encontrá-la nas conchas marinhas

A procura por elementos de construção que se afastem dos materiais clássicos, como o aço, o betão ou o cimento, faz sentido em diferentes frentes, desde a economia à sustentabilidade, passando pelas limitações técnicas. Sem ir mais longe, já podemos ver arranha-céus feitos de madeira e alguns até competem para ser o mais alto do mundo. Sim, a madeira surge como uma alternativa séria, mas também é possível dar uma reviravolta no cimento tal como o conhecemos com um novo velho conhecido: as conchas da praia.

De resíduo a ingrediente do betão. As conchas marinhas, que normalmente são tratadas como resíduos, podem tornar-se uma espécie de substituto do cimento utilizado no betão, como concluiu um estudo da Universidade de East London publicado na revista Construction Materials. Na verdade, elas podem atuar tanto como material de enchimento quanto como substituto parcial do cimento. Assim, a análise microestrutural revelou que as conchas, que são ricas em cálcio, ajudam a refinar a estrutura porosa do betão e favorecem a formação de compostos de ligação adicionais, ou seja, proporcionam benefícios adicionais em termos de desempenho.

Sob o microscópio. As conchas das vieiras são compostas por uma mistura de 95 a 99% de carbonato de cálcio (como o calcário, matéria-prima do cimento) apresentado em duas formas cristalinas, a calcite e a aragonite. Os outros 1-5% são a fração orgânica, que serve como cimento para unir os cristais de cálcio. As conchas são uma espécie de calcário biogénico, quimicamente compatível com o cimento, que não deixa de ser um aglomerante hidráulico de calcário e argila.

Por que é importante. A substituição parcial do cimento por um material residual natural como as conchas é uma solução inesperada e inovadora para reduzir o impacto ambiental do cimento, atualmente responsável por aproximadamente 7% das emissões globais de carbono. Esta percentagem é tão elevada não só devido ao combustível necessário para aquecer os fornos, mas também devido à própria química do processo. Na verdade, já foram feitas experiências com argamassa ecológica. O responsável pelo estudo, o professor associado de Engenharia Estrutural na UEL e doutor Ali Abass fornece mais contexto: «O betão está em todo o lado e, consequentemente, a sua pegada de carbono é enorme.» Em relação à sua aplicabilidade para além do estudo, Abass está otimista: «Com níveis moderados de substituição, o betão tem um desempenho muito bom, o que significa que esta solução poderia ser escalada em ambientes reais»

Um passo de gigante para uma construção mais sustentável. Em suma, a utilização de conchas permitiria reduzir quantidades significativas de CO₂ de um dos materiais mais poluentes do mundo e avançar para uma construção mais sustentável. Na ausência de ensaios industriais futuros que comprovem a fiabilidade em grande escala, o seu potencial de adoção é notável, especialmente num momento em que se defende cada vez mais normas ambientais mais rigorosas e há um escrutínio sobre o cálculo da pegada de carbono.

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