Dois cilindros encontrados nas escavações arqueológicas da zigurate em Kish contêm uma inscrição de Nabucodonosor II, confirmando as descobertas arqueológicas

Uma descoberta acidental na antiga cidade mesopotâmica de Kish forneceu novos dados valiosos para a compreensão dos trabalhos de reconstrução do rei Nabucodonosor II, um dos monarcas mais famosos do Novo Império Babilónico. Trata-se de dois cilindros de barro cozido com inscrições em escrita cuneiforme, que documentam a restauração da zigurate dedicada ao deus Zababa e à deusa Ishtar em Kish. Esta descoberta, recentemente publicada na revista Iraq, é o primeiro texto fundamental que descreve em detalhe os trabalhos de Nabucodonosor II neste emblemático templo-torre.

Em dezembro de 2013, dois residentes locais entregaram ao Conselho Estatal de Antiguidades e Património do Iraque dois objetos cilíndricos com inscrições que encontraram na superfície de Tell Al-Uhaymir, o tell onde se encontram as ruínas da zigurate de Kish. Os cilindros foram registados no Museu Iraquiano em Bagdade com os números de inventário IM.227410 (denominado Kz-1 pelos investigadores) e IM.227488 (Kz-2). Ambos foram fabricados no estilo típico dos documentos fundamentais do período neobabilónico: são cilindros maciços de barro cozido com textos escritos em escrita cuneiforme.

Conteúdo da inscrição: decreto real sobre a restauração

As inscrições em ambos os cilindros são praticamente idênticas, com pequenas diferenças ortográficas, características de diferentes escribas. O texto, estruturado em duas colunas, segue um padrão narrativo comum, característico das inscrições reais da época. A narrativa começa com a apresentação do rei: «Nabucodonosor, rei da Babilónia, a quem Marduk, Enlil dos deuses, deu o nome para que governasse todas as terras». Nabucodonosor é apresentado como um governante escolhido pelos deuses para governar e, o que é especialmente importante, para cuidar dos principais templos do reino.

Mais adiante no texto, justifica-se a necessidade de realizar os trabalhos. Ele descreve que o zigurate de Kish, chamado É.U6.NIR.KI.TUŠ.MAH («Casa, torre-templo, morada elevada»), foi originalmente construído pelo «rei do passado» e depois restaurado pelo «rei anterior». No entanto, com o tempo, o edifício voltou a ficar em estado de grande abandono: «as suas paredes cederam… e as chuvas torrenciais desgastaram a sua alvenaria». O rei afirma que reorganizou a alvenaria, restaurou as partes desmoronadas, concluiu a construção e elevou a superestrutura. Por fim, ele embelezou a sua aparência externa para que brilhasse «como a luz do dia». O texto termina com uma oração a Zababe e Ishtar, na qual ele pede vida longa, vitória sobre os inimigos e bênçãos para o seu reinado.

Significado da descoberta

Esta descoberta é significativa por várias razões. É a primeira vez que se encontra um texto fundamental de Nabucodonosor II dedicado especificamente à restauração da zigurate de Zababa em Kish. Anteriormente, o seu trabalho ali era conhecido apenas através de tijolos com a impressão do seu nome. Estes cilindros contêm um relatório oficial e completo do trabalho. O texto menciona de forma geral os dois reis anteriores que construíram e restauraram a zigurate. Isso coincide com os dados arqueológicos de Tell Al-Uhaymira, onde foram encontradas inscrições de três reis, incluindo Nabucodonosor.

Estudos anteriores, como os realizados por Ernest Mackay na década de 1920, já identificaram quatro fases de construção do zigurate, a última das quais corresponde a Nabucodonosor II. Os cilindros são um excelente exemplo de como os reis desta dinastia usavam inscrições fundamentais. Eles não apenas documentavam obras públicas, mas também legitimavam o seu poder, apresentando-se como restauradores piedosos de tradições antigas, continuadores da obra de monarcas anteriores e instrumentos da vontade divina. O texto também reforça o conhecimento sobre a importância do deus guerreiro Zababa e da deusa Ishtar como patronos de Kish, que compartilhavam o mesmo santuário principal. Além disso, ele esclarece o nome da zigurate: É.U6.NIR.KI.TUŠ.MAH, embora também seja atestado de outra forma ligeiramente diferente.

A cidade de Kish e as suas zigurates

Kish não era uma cidade simples. Na antiguidade, era composta por duas partes: Kish, a oeste, onde se localizava a zigurate de Zababa, e Khursagkalama, a leste (atual Tell-Ingarra), onde se localizava o grande templo de Ishtar, também restaurado por Nabucodonosor II. De acordo com o artigo, Kish já teve três zigurates, o que reflete a sua enorme importância religiosa e política desde o período dinástico antigo. Os cilindros Kz-1 e Kz-2 são, na verdade, uma declaração real para a imprensa, gravada em argila há mais de 2500 anos. A sua mensagem é clara: Nabucodonosor II, o grande construtor de Babilónia, também dedicou recursos e atenção à antiga cidade de Kish, garantindo que o seu zigurate, símbolo da ligação entre o céu e a terra, estivesse à altura dos deuses.

Os autores do estudo, Ahmed Ali Javad e Hussein Fleih Al-Amari, concluem destacando a importância desta descoberta para a compreensão da política religiosa e de construção do reino: «Este é o primeiro texto fundamental que documenta as obras de construção do rei Nabucodonosor II para restaurar o zigurate do deus Zababa em Kish». Uma análise detalhada das frases do texto, em comparação com outras inscrições reais da época, mostra que Nabucodonosor e os seus escribas usavam uma linguagem formulaica, mas adaptada a cada projeto específico. Frases como «Eu o tornei tão bonito quanto o céu estrelado» ou «Eu lhe prestei homenagem» também aparecem em outros contextos, mas aqui elas se referem ao santuário de Zababa e Ishtar em Kish. Esta descoberta casual na superfície do tell iraquiano lembra que o solo da Mesopotâmia ainda guarda inúmeros fragmentos da sua história, à espera de serem lidos e reinterpretados. Cada um deles, tal como estes dois cilindros, acrescenta mais um detalhe ao complexo puzzle da civilização que floresceu entre o Tigre e o Eufrates.

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