As abelhas implacáveis da Amazônia passaram de criaturas invisíveis a sujeitos de direito. Não é uma metáfora. Em várias regiões da Amazônia peruana, esses insetos locais não apenas existem: o seu direito à existência e ao florescimento é reconhecido por lei. Esta é uma mudança profunda na compreensão da conservação da natureza, que deixa para trás a lógica da «proteção dos recursos» e fala do reconhecimento da vida. Ao contrário das abelhas europeias, introduzidas há vários séculos, estas espécies amazónicas não picam, não colonizam e não se deslocam. Elas coexistem. Elas existem lá há milhares de anos. No entanto, durante décadas, permaneceram fora do campo de visão das políticas públicas, dos recenseamentos oficiais e dos programas de proteção ambiental. Cultivadas pelos povos indígenas desde os tempos pré-colombianos, as abelhas sem ferrão sustentam uma parte importante do equilíbrio ecológico da selva.
Elas polinizam grande parte da flora da Amazônia, sustentam complexos ciclos florestais e tornam possível o cultivo de culturas importantes, como cacau, café ou abacate, mesmo em sistemas agroflorestais tradicionais. Hoje, a sua sobrevivência está ameaçada por uma série de fatores que atuam em conjunto: o desmatamento acelerado, o uso generalizado de pesticidas, as alterações climáticas e a pressão de espécies invasoras, como as abelhas africanizadas. Uma combinação silenciosa, mas devastadora. Para aqueles que promoveram essas leis, a mudança não é apenas jurídica, mas também cultural. O reconhecimento dos direitos da espécie significa reconhecer que a natureza não é um cenário nem um armazém inesgotável. É um sistema vivo do qual dependemos.
O processo não surgiu num escritório, mas sim no terreno. Muitos anos de trabalho conjunto com as comunidades indígenas permitiram documentar a presença, a redução do número e o valor ecológico destas abelhas. A investigação científica desempenhou um papel fundamental, mas o conhecimento tradicional transmitido de geração em geração foi igualmente importante. O interesse inicial pelo mel, que era usado como medicamento durante a pandemia em áreas sem acesso a tratamento médico, abriu uma oportunidade inesperada. A análise química revelou uma surpreendente variedade de compostos biologicamente ativos, muitos dos quais com propriedades anti-inflamatórias, antibacterianas e antioxidantes. Não era apenas um alimento. Era um remédio. E, de certa forma, a memória biológica da selva.

A partir desse momento, as expedições passaram a ser realizadas com mais frequência. Não para extração, mas para estudo. Como encontrar ninhos. Como cuidar deles. Como coletar mel sem destruir os ninhos. Ações delicadas e precisas. Nada industrial. A Amazônia abriga cerca de metade das cerca de 500 espécies conhecidas de abelhas na planeta. Elas são as mais antigas. E também as mais vulneráveis a mudanças bruscas. Quando elas desaparecem, nem sempre há um substituto funcional. Para os povos ashaninka e kukama-kukamiri, essas abelhas não são um recurso. Elas fazem parte do tecido cultural. Elas guardam um conhecimento antigo, que não está registrado, mas é praticado. Perder essas abelhas significa perder a língua, a história e os modos de vida na selva.
Os depoimentos coletados em comunidades remotas são coincidentes. Se antes bastava caminhar alguns minutos para encontrar colmeias, agora isso leva horas. Às vezes, elas não são visíveis. E quando aparecem, nem sempre estão saudáveis. Foram encontrados resíduos de pesticidas no seu mel, mesmo em áreas distantes da agricultura industrial. A contaminação não conhece fronteiras. Durante muitos anos, a falta de reconhecimento oficial bloqueou as pesquisas. Sem dados, não havia proteção. Sem proteção, não havia financiamento. Um círculo vicioso. Para quebrá-lo, foram necessárias persistência, alianças e paciência. O mapeamento ecológico, iniciado em 2023, foi um ponto de viragem: mostrou claramente a relação direta entre o desaparecimento das florestas e a redução das populações de abelhas locais.
Este trabalho contribuiu para a aprovação, em 2024, de uma lei nacional que reconhece as abelhas locais do Peru como espécies ameaçadas, introduzindo automaticamente obrigações para a sua proteção. Depois disso, alguns municípios foram ainda mais longe. Depois, Nauta. No seu território, as abelhas têm direito a um habitat saudável, condições climáticas estáveis, proteção contra envenenamento e, o que é especialmente importante, representação legal em caso de danos ou ameaças. Este é um precedente sem paralelo no mundo. As resoluções obrigam a agir. Reflorestamento, controlo rigoroso de pesticidas, adaptação ao clima, apoio à investigação científica e aplicação do princípio da precaução. Não se trata de declarações simbólicas. São requisitos obrigatórios.
O problema substancial é mais profundo. Há décadas, uma experiência para aumentar a produção de mel em clima tropical levou ao surgimento das abelhas africanizadas. Elas são mais produtivas, sim. Mas também mais agressivas. Hoje, essas abelhas estão a substituir as espécies locais, ocupando os seus nichos e perturbando o equilíbrio local. Em zonas como a reserva da biosfera Avirei Vraem, o conflito é palpável. As comunidades que antes coexistiam com abelhas pacíficas agora são atacadas. Medo real. Abandono forçado das práticas tradicionais. Não se trata de uma discussão teórica. A resposta jurídica não elimina o problema de uma vez por todas, mas muda as regras do jogo. Estabelece limites. Obriga a planear. Dá ferramentas àqueles que vivem lá para proteger o seu ambiente.

Abelhas implacáveis
As abelhas implacáveis são um grupo de abelhas sociais que não podem picar porque o seu ferrão está atrofiado. Pertencem principalmente à tribo Meliponini e habitam principalmente em regiões tropicais e subtropicais, com uma enorme diversidade na Amazônia. Não são raras: são as abelhas mais antigas do planeta, que evoluíram ao longo de milhões de anos nas florestas tropicais.
Algumas chaves para compreendê-las:
- Elas não picam, mas defendem-se. Como não têm ferrão funcional, defendem-se de outras maneiras: mordem, usam resina pegajosa ou bloqueiam a entrada dos seus ninhos. O seu comportamento é muito menos agressivo do que o das abelhas europeias.
Polinizadores indispensáveis. São os principais polinizadores dos ecossistemas tropicais. Na Amazônia, estima-se que participem na polinização de mais de 80% da flora, incluindo muitas plantas silvestres e culturas, como o cacau, o café ou as frutas amazônicas. Sem elas, a floresta perde a sua capacidade de regeneração.
Mel invulgar e muito valioso. Produzem uma pequena quantidade de mel, mais líquido e com um sabor intenso. Não se assemelha ao mel comercial comum. Contém compostos biologicamente ativos com propriedades antibacterianas, anti-inflamatórias e antioxidantes e é tradicionalmente utilizado pelas populações indígenas como medicamento natural.
Vivem em colónias complexas. Construem ninhos em ocos de árvores, solo ou troncos, utilizando cera misturada com resinas vegetais. Cada espécie tem a sua própria arquitetura. Algumas colónias são pequenas, outras são surpreendentemente organizadas.
Profundo valor cultural. Para muitos povos indígenas da Amazônia, as abelhas implacáveis não são apenas insetos. Elas representam o conhecimento dos antepassados, a espiritualidade e a coexistência respeitosa com a floresta. A sua criação é conhecida como meliponagem. Muito vulneráveis. Embora tenham sobrevivido milhões de anos, hoje estão ameaçadas por razões recentes: desmatamento, pesticidas, alterações climáticas e concorrência de espécies invasoras, como as abelhas africanizadas. Quando desaparecem, nem sempre há outra espécie que desempenhe a mesma função ecológica. As abelhas implacáveis são discretas, antigas e fundamentais. Não fazem barulho nos meios de comunicação, não produzem mel industrial, não atacam. Mas sustentam silenciosamente a biodiversidade de alguns dos ecossistemas mais ricos do planeta. E quando faltam, isso é notório. Embora com atraso.

Quais são os direitos específicos reconhecidos às abelhas impiedosas
Às abelhas impiedosas da Amazônia é reconhecido um conjunto de direitos «próprios», muito semelhante a uma carta de direitos fundamentais aplicável aos insetos.
Direitos reconhecidos às abelhas
- O direito de existir e prosperar, sem serem exterminadas ou tratadas exclusivamente como um recurso explorável.
- O direito de manter populações saudáveis, ou seja, de preservar a sua diversidade e número suficientes para manter as suas funções ecológicas.
- O direito a um habitat saudável e livre de poluição, o que inclui proteção contra pesticidas, resíduos tóxicos e outras formas de poluição.
Condições ambientais e ciclos naturais
- O direito de viver em condições climáticas ecologicamente estáveis, evitando mudanças climáticas extremas que ameaçam a sua sobrevivência.
- O direito de restaurar os seus ciclos naturais, restaurar os seus habitats e restaurar as zonas degradadas necessárias para nidificação e alimentação.
Representação jurídica e proteção prática
- Direito à representação jurídica em tribunais ou órgãos governamentais em caso de danos ou ameaças causados por atividades humanas (desmatamento, agroquímicos, projetos de exploração, etc.).
- Direito à adoção de medidas de proteção ativas pelas autoridades: transferência de colmeias em vez de sua destruição, redução do uso de inseticidas e restauração da flora natural.
